A Disputa por Distribuição

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A Disputa por Distribuição

3 de julho de 2023 Artigos Customer Experience Design de Comunicação 0
A disputa por distribuição ou Como o indivíduo escolhe uma nova rede social

Com os eventos provocados pelas decisões “pouco ortodoxas” do atual dono do Twitter de limitar a capacidade de não pagantes em consumir os conteúdos da rede (acessando apenas 600 tweets por dia), uma discussão surgiu sobre a possível intenção de “substituir a rede” por outra: O que realmente define o interesse do usuário em uma rede?

Primeiro, é importante posicionar a relevância do Twitter como rede. De acordo com o relatório da Reuters sobre Notícias a nível global, em análise sobre utilização, o Twitter se mantém como uma rede que impacta apenas um terço da população mais jovem, mostrando sua capacidade de gerar redes intrínsecas de valor. É uma rede onde você pode receber atualizações oficiais de presidentes a celebridades, mas não distribui para um volume maior de audiência.

Gráfico d eutilização das Redes Sociais onde o Twitter aparece como 33% do interesses de jovens de 18 a 24 anos estáve de 2014 a 2023

Em 2023, já é de domínio público que as empresas de tecnologia utilizam algoritmos personalizados para apresentar aos usuários conteúdos selecionados com base em seus interesses e comportamentos anteriores. Conforme Eli Parisier nos aponta no livro “O Filtro Invisível: O que a Internet está escondendo de você“, essa filtragem personalizada pode limitar a diversidade de informações a que as pessoas são expostas, reforçando seus preconceitos e limitando sua visão de mundo, uma vez que restringe o acesso a diferentes pontos de vista e dificulta o debate público saudável.

A grande questão é: se as redes se tornaram, essencialmente, espaços filtrados para atender nossos desejos por prazeres de curto prazo, em que base esses espaços podem se redistribuir? O que leva uma pessoa a uma “nova rede”?

Partindo desse mesmo público jovem, no artigo “The Drama! Teen Conflict, Gossip, and Bullying in Networked Publics” de 2011, a autora Danah Boyd já apontava como a visibilidade e a permanência das informações online podem intensificar os dramas sociais entre os adolescentes. Boyd também enfatiza a necessidade de compreender o contexto social e cultural dos adolescentes ao analisar essas interações online. Ela destaca que as normas e as dinâmicas offline também influenciam as relações online, e que é importante considerar esses aspectos ao abordar questões como bullying e conflitos.

Considerando que esses adolescentes de 2011 formam hoje a grande massa de usuários com mais de 25 anos nas redes, em especial o Twitter (nesse caso, mais um efeito colateral da aquisição foi não encontrar uma base de dados confiável para o volume de usuários com essa idade, então partimos de dados de 2020), é essa mesma massa que desconstruiu a ideia desses espaços como “reunião de amigos” para um espaço essencialmente destinado à distribuição e consumo de informações de “nós cruzados”.

Adotando essa visão a partir da Teoria das Redes Complexas, esses “nós cruzados” são a busca pelo ganho de grau a partir da distribuição de conectividade. Uma rede só é relevante para uma pessoa se:

  1. Pessoas que possuem um grau alto de conectividade estão distribuindo seus conteúdos de interesse: Influenciadores comentando determinada mídia, jornalistas trazendo uma informação relevante ou uma autoridade apresentando diretamente um tema, etc.
  2. Existe algum nível de conexão, direta ou intermediada, entre esses nós e seus interesses, a ponto de que haja, a partir do diálogo, pontos de conexão entre o que a pessoa busca mostrar e as comunidades que ela quer (ou pelo menos gostaria) de impactar. Por exemplo, pessoas que pedem ajuda de outras para que compartilhem seus conteúdos, mobilizações em torno de uma “chave” ou hashtag que atraem esse tema para o centro do assunto.

Esses dois fatores independem inclusive da relevância pública ou da utilidade da propagação da informação. Você pode ir desde uma questão pública como a mobilização de grupos para ação frente a uma votação de projeto de lei até uma opinião geral sobre como se deve lidar com os conflitos de geração ao nomear um produto qualquer.

Retomando as ideias de Parisier sobre a mediação algorítmica desses nós, temos a clara perspectiva de que novas redes não são mobilizadas (na dimensão de escolha do indivíduo) pela conexão direta de interesses, mas pela potencialidade de um algoritmo lhe deixar um passo ou dois mais perto de um desses “centros de atração” que lhe fornecem mais do que você se interessa e também tem a chance de potencializar a relevância do indivíduo, mesmo que seja só por uma “tirada sagaz” sobre a chave que está dominando as conversas.

Em uma cauda cada vez mais longa e disputada, não apenas pelo interesse direto econômico (mídia, venda, propaganda, conteúdo), mas também por um processo de vigilância (veja mais em “A Era do Capitalismo de Vigilância” de Shoshana Zuboff), onde o valor está na soma do dado personalizado à intenção de ação naquele espaço, o que define a escolha por uma nova rede de distribuição é a potencialidade dos nós que optarem previamente por ela.

No final, na dimensão individual, esse tipo de rede será sempre sobre falar para pessoas que este indivíduo não quer ouvir (as que ele quer estão no seu aplicativo de mensagens diretas) e ouvir pessoas que não querem falar com o indivíduo (mas que em algum momento podem te dar a chance de estar nesse espaço e fazer parte do nó).

Artigo Escrito por Júlio Matos | Designer e Especialista em Comunicação da Gradium

 

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